Dossiê Septuaginta: Manuscritos, Diferenças Textuais e o NT
A Septuaginta (LXX) não é apenas uma “versão grega do Antigo Testamento”; é a ponte textual que moldou a teologia do cristianismo primitivo. Quando Paulo cita “a Escritura”, na grande maioria das vezes ele está citando este texto grego, não o Texto Massorético hebreu que baseia nossas Bíblias modernas.
Entender a LXX é obrigatório para quem faz crítica textual séria ou exegese do Novo Testamento. As divergências não são ruído — são janelas para uma tradição textual hebraica mais antiga que o padrão massorético fixado séculos depois.
Origem: a lenda de Aristéias e a realidade alexandrina
A “Carta de Aristéias” conta que 72 anciãos traduziram a Torá em 72 dias para a Biblioteca de Alexandria, por ordem de Ptolemeu II (séc. III a.C.). A história é teológica, não histórica. A realidade é mais prosaica: judeus helenistas em Alexandria precisavam das Escrituras em grego koinê, a língua franca do Mediterrâneo oriental. A tradução dos Profetas e Escritos seguiu depois, de forma irregular, ao longo de dois séculos.
Manuscritos: a tradição cristã preservou o que o judaísmo descartou
O judaísmo rabínico rejeitou a LXX a partir do séc. II d.C., fixando o Texto Massorético (MT). Ironia: os melhores manuscritos da LXX são códices cristãos do séc. IV e V — Codex Vaticanus (B), Sinaiticus (א) e Alexandrinus (A). Para o texto hebraico anterior a 900 d.C., a LXX é frequentemente nossa testemunha mais antiga, anterior aos Pergaminhos do Mar Morto em muitos livros.
Diferenças textuais: não são apenas “erros de tradução”
- Jeremias na LXX é 1/8 mais curto e tem ordem de capítulos diferente do MT; Qumran (4QJerb,d) confirmou que a LXX reflete uma edição hebraica distinta e mais antiga.
- Êxodo 1:5: MT diz “70 almas”; LXX e Atos 7:14 dizem “75”. A LXX conta os netos de José nascidos no Egito.
- Salmos 145 (146 LXX): É acróstico no MT (falta a letra nun); a LXX preserva o versículo faltante (“Fiel é o Senhor em todas as suas palavras”).
- Daniel e Ester: A LXX tem adições teológicas (oração de Azarias, sonho de Mardoqueu) que o MT exclui; a teologia cristã primitiva as tratava como canônicas.
Relação com o Novo Testamento: o “Bíblia dos Apóstolos”
Das ~300 citações explícitas do AT no NT, cerca de 90% seguem a LXX contra o MT. Mateus 1:23 cita Isaías 7:14 (“parthenos — virgem”) onde o MT tem almah (“jovem”). Hebreus 10:5-7 cita Salmo 40:6-8 na forma LXX (“corpo me preparaste”) divergindo do MT (“ouvidos me cavaste”). O autor de Hebreus constrói sua cristologia sobre o texto grego. Ignorar a LXX torna a hermenêutica neotestamentária opaca.
Curiosidades técnicas que mudam a leitura
Orígenes, no séc. III, percebeu o caos textual e criou a Hexapla: seis colunas paralelas (Hebraico, Hebraico em gregos, Aquila, Símaco, LXX revisada, Teodocião). Ele marcou com obelos (÷) o que a LXX tinha a mais que o hebraico e com asteriscos (*) o que faltava, preenchendo com Teodocião. Perdemos a Hexapla completa, mas suas siglas sobrevivem nos manuscritos marginais.
A LXX também fixou a ordem canônica “cristã” (Lei, História, Poesia, Profetas) em vez da tripartição judaica (Torá, Profetas, Escritos). Isso moldou a estrutura da sua Bíblia impressa hoje.
Resumo prático: A Septuaginta é o Antigo Testamento da igreja primitiva. Para exegese do NT, ela tem autoridade primária; para crítica textual do AT, ela é testemunha de um Vorlage hebraico pré-massorético. Estudá-la não é opcional — é metodologia.
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O que significa exatamente o termo “Septuaginta” e a sigla LXX?
“Septuaginta” vem do latim septuaginta (setenta). A sigla LXX (70 em numerais romanos) refere-se à lenda registrada na Carta de Aristeias, que narra a tradução da Torá por 70 (ou 72) anciãos judeus em Alexandria, no século III a.C., a pedido de Ptolomeu II.
A Septuaginta é apenas uma tradução grega do Antigo Testamento?
Não. Inicialmente era apenas a Torá (Pentateuco). Os livros proféticos e históricos foram traduzidos depois, ao longo dos séculos II e I a.C. Além disso, a LXX inclui livros não presentes no cânon hebraico (deuterocanônicos/apócrifos), como Tobite, Judite, Sabedoria, Eclesiástico e 1-2 Macabeus, refletindo um cânon “alexandrino” mais amplo.
Quais são os manuscritos mais importantes da Septuaginta disponíveis hoje?
Os três grandes unciais do século IV-V d.C. são a base textual: Codex Vaticanus (B), Codex Sinaiticus (א) e Codex Alexandrinus (A). Para edições críticas modernas (como Rahlfs ou Göttingen), papiros mais antigos (séculos II a.C. a III d.C.), como o P. Rylands 458 ou P. Fouad 266, são fundamentais para recuperar leituras primitivas.
Por que a Septuaginta difere do Texto Massorético (Bíblia Hebraica padrão)?
Três fatores principais: (1) Os tradutores usaram um Vorlage (texto-base hebraico) diferente do que viria a ser padronizado pelos massoretas séculos depois; (2) A tradução envolve escolhas exegéticas, teológicas e linguísticas (livre vs. literal); (3) Há revisões recensionais posteriores (como a de Orígenes na Hexapla, e as de Luciano e Hesíquio) que alteraram o texto grego para aproximá-lo do hebraico vigente.
É verdade que o Novo Testamento cita mais a Septuaginta que o texto hebraico?
Sim. Das cerca de 300 citações explícitas do AT no NT, a grande maioria segue a redação da LXX, mesmo quando esta diverge do Massorético. Exemplos clássicos: Mateus 1:23 (“virgem” – parthenos em Isaías 7:14 LXX vs. “moça” – almah no MT) e Hebreus 10:5 (Salmo 40:7 LXX “corpo me preparaste” vs. MT “ouvidos me cavaste”). Os apóstolos tratavam a LXX como Escritura autorizada.
A Septuaginta é considerada “inspirada” ou canônica pelas igrejas hoje?
